segunda-feira, 17 de setembro de 2007

RELIGIÃO, POLÍTICA E CORRUPÇÃO

Ainda sofrendo os respingos dos últimos acontecimentos que tiveram como palco a Câmara Federal, o Brasil chafurda-se nas descobertas de uma CPI que quase faz os brasileiros acreditarem que religião, política e corrupção sejam sinônimas. Assusta, não?! Mas é isso o que dezenas de reportagens publicadas na imprensa secular deixaram bastante explícito nos últimos meses. É como se as entranhas da corrupção fossem revolvidas e nesta empreitada se descobrisse que sangue evangélico estivesse correndo.

À coisa começou quando se descobriu que a Comissão de Orçamento, em Brasília, servia apenas de fachada para que deputados espertalhões desviassem dinheiro para os seus bolsos. Este dinheiro, para despistar, passava por caminhos sinuosos que incluía entidades assistenciais fantasmas. Nestas, começaram a surgir algumas com nomes muito parecidos com coisas a que os evangélicos estão acostumados: Ordem de Ministros Evangélicos do Brasil, Associação Promotora de Evangelismo (Rádio Boas Novas), Associação Fluminense de Educação e outras. É triste, mas é verdade: entidades muito próximas ao convívio dos evangélicos.

As reportagens apresentaram títulos os mais comprometedores. Vejam: Pastor ganhou verbas mas já lesou INSS. Muito triste. Trata-se do reverendo Isaías de Souza Maciel acusado de fraudes com o antigo INAMPS, na gestão do SASE (Serviço de Assistência Social Evangélico). Ele sustenta o título de persona non grata junto à Previdência Social (ver Jornal do Brasil, 6/11/93). Outra reportagem estampou: A CPI da adúltera na paróquia, fazendo referência à Marinalva Soares da Silva, 38, que foi expulsa da Assembléia de Deus pelo pai, pastor Marinésio, “que não agüentou as pressões da comunidade”. Ela é ex-esposa do deputado Manoel Moreira (PMDB-SP), envolvido até o pescoço no lamaçal do Congresso (confira em Veja, nº 1319, pág. 81).

Nesta esteira, é claro que muitos jornalistas não deixaram isto barato. É o caso de Aguinaldo Silva, que em sua coluna no Jornal do Brasil soltou este torpedo: “Não é segredo pra ninguém que os deuses evangélicos nutrem um apetite voraz por dinheiro.” E acrescentou: “Tudo bem quando este dinheiro sai dos bolsos dos fiéis através do chamado dízimo. Agora, quando é pescado nos cofres públicos, aí a gente começa a perceber melhor o quanto é móvel a fronteira que separa certas religiões da picaretagem pura e simples.” (14/11/93).

Triste disto tudo é que as grandes denominações evangélicas no Brasil pouco ou nada fazem para verem-se livres destes fantasmas políticos que rondam as suas agremiações. Alguns destes, que se dizem representantes dos evangélicos nas instâncias políticas, nunca honraram sua denominação e seu Deus, sequer correspondendo aos anseios daqueles que os alçaram ao poder público. Mas, aí, o emaranhado de gatos é ainda maior, porque no Brasil o próprio povo se acomodou aos votos de barganha, num troca-troca desavergonhado em que a lei da vantagem se sobrepõe à ética cristã.

Até que houve um arremedo de resistência, mas, então, “Inês já era morta!” Uma reportagem trouxe a manchete: CPI deixa evangélicos preocupados, e o seguinte subtítulo: Pastores acham discriminação citar vínculo de Moreira com a Assembléia de Deus (ver Jornal do Brasil, 14/11/93). Tudo bem que a imprensa é cruel neste sentido. Quando é um católico ou espírita que fraqueja no trato da coisa pública, ela não ressalta sua condição religiosa, mas quando é evangélico... Ah, quando é evangélico, a imprensa descasca! Mas, será que os líderes das diversas denominações não sabem com quem estão lidando? Picareta se conhece pelo cheiro. Mas aqui também entra um conceito muito brincalhão no meio evangélico: o utilitarismo de carteirinha. É o chamado útil descartável: enquanto não compromete até que o elemento “x” ou “y” pode prestar uns bons serviços à Causa. Então, quando a gente toma chicotada da imprensa é porque lá atrás, a uns bons quarteirões, a ética ficou estilhaçada...

Não é preciso que os evangélicos arranquem os cabelos por causa desta situação. É necessário, tão somente, que estejam dispostos a cumprirem seu papel de “sal da terra” e “luz do mundo”, sem rodeios e sem medos, conscientes de que já passou o tempo em que se vivia uma dicotomia nas relações com o material. Sagrado e profano são conceitos que se prestam muito bem à manipulação de mentes e circunstâncias. Se estamos com nossas vidas submissas à ação do Espírito Santo e nisto perseveramos, não há espaço para fragmentações: somos do Senhor e pronto! Agora, não dá para aceita a corrupção passivamente. Quando cumprimos nossa missão profética, denunciando as mazelas daqueles que exploram o pobre e espezinham o indefeso, então alçaremos a religião aos mais altos padrões, descartando qualquer parentesco mal-amado com corruptelas desta vida.

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Observação: Este texto foi publicado originalmente em O Jornal Batista, na coluna DIA A DIA, assinada pelo autor naquele hebdomadário. Publicada na edição de 03 de Abril de 1994.

sábado, 15 de setembro de 2007

FAMÍLIAS QUEBRADAS

A ênfase dos batistas para este ano (1994), em torno da família, privilegia as unidades familiares que estão estruturadas numa base padrão: pai, mãe, filhos. Ou seja, como já deu para perceber – inclusive nas diferentes abordagens do tema da Assembléia de Aracaju – a família que está em pauta é a família ideal, aquela que está constituída dentro das normas e princípios legais vigentes no país. Mais que isto: dentro dos padrões que consideramos bíblicos e cristãos.

A realidade, porém, não é tão epifânica assim. Conquanto não desprestigiemos o valor da família solidamente alicerçada, na qualidade de líderes de Deus que trabalham para o povo precisamos conhecer de perto suas minudências para que a nossa fala e a nossa ação aconteçam consoantes as realidades detectadas. E “é aí que mora o perigo”, diriam alguns. Um exame mais atencioso da membresia de nossas igrejas há de revelar – talvez surpreendentemente para alguns líderes – grande índice de famílias que fogem aos padrões ditos ideais. São: mães solteiras, mulheres descasadas com filhos, filhos que moram com avós, homens divorciados em novo consórcio etc.

Um colega de ministério no Rio de Janeiro se disse surpreso com a condução que estava dando ao Ano da Família em sua igreja. No meio do processo descobriu que estava dando acentuado destaque à família ideal, não encontrando, porém, eu seu projeto, nenhuma atividade que envolvesse ou estimulasse a participação das famílias que fogem ao modelo ideal. Para ele, esta descoberta soou como advertência. A verdade é que não podemos esquecer esta realidade eclesiástica contemporânea. Este colega já está tomando medidas para envolver esta gente. Precisamos estar atentos à roda-gigante do tempo. Os dias de hoje são outros, apesar de muitos de nós não querer admitir isto. Não podemos ignorar os dados que uma simples pesquisa sobre família, em cada igreja, pode revelar. Experimente isto! O que descobriremos não será, talvez, o que sonhamos, o que almejamos, e para isto estamos trabalhando, ou o que foi a intenção primeira de Deus para o casamento. Mas será a realidade!

Por falar nisto, tomei um susto com o filme Uma babá quase perfeita. Assisti com a minha esposa. Muito hilariante, vale a pena conferir. A trama se dá em torno do divórcio do casal, cujo pai não abre mão do convívio diário com os filhos. Mas à justiça dá ganho de causa à mãe o que garante ao pai apenas uma visita acompanhada aos sábados. Resta ao pai atender ao anúncio da esposa nos jornais e se tornar a babá dos próprios filhos. Ao final da película, a mensagem que me chocou, em princípio: “Não importa se você mora com seus pais, só o pai, só com a mãe, com os avós etc. Não importa! O que importa é que vocês se amem!”

Quando ouvi esta mensagem (ou coisa parecida), meu pensamento voou: será que este filme está fazendo a apologia das famílias quebradas? Partidas pela separação? Logo me consertei: este já é um fato consumado. E se é que existem milhares de lares nesta situação, que se trabalhe, então, para construir o amor.

Os que nossas igrejas podem fazer no Ano da Família para ajudar aqueles que, de alguma forma, sofreram revezes? Sem pretender esgotar o assunto, aí vão algumas dicas:

1º) Considere e respeito todos os que a igreja abriga. Se já fazem parte da família maior, a família de Deus; a igreja local, também como grande família, deve ampará-los e a apoiá-los.

2º) Encontre meios de envolver estas famílias em todas as atividades propostas para o Ano da Família. Considere-as, também, unidades familiares.

3º) Se a igreja estiver promovendo alguma gincana, concurso, ou qualquer outra atividade que demande uma participação por família, estude os meios possíveis para que todos participem. Quem sabe, unindo-os com os demais parentes ou mesmo juntando duas famílias pequenas.

4º) Em possíveis estudos e preleções que abordem o tema, fale sobre os ideais de Deus para a família cristã, mas não deixe de fazer as devidas ressalvas em relação àquelas que por qualquer motivo fogem desse padrão.

5º) Promova estudos e debates abordando os problemas da família moderna. Valorize a importância da atuação de Deus em cada vida, independentemente dos problemas que cada um enfrente.

6º) Por fim, duas sugestões: Livro: Problemas da Família Moderna, Merval Rosa, JUERP. Revista: A Família e os Desafios de um Novo Tempo, Josué Ebenézer, JUERP.

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Observação: Este texto foi publicado originalmente em O Jornal Batista, na coluna DIA A DIA, assinada pelo autor naquele hebdomadário. Publicada na edição de 27 de Fevereiro de 1994.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

SEQÜESTRO DE BATISTAS

O fato realmente me pegou de surpresa. Não esperava por esta onda de seqüestros de batistas brasileiros. Foi estarrecedor, algo grave. “Diz logo o que aconteceu!” – deve estar pensando você. Mas é isto mesmo: batistas seqüestrados! E olha que não estou me referindo ao seqüestro das irmãs Miriam e Margarida Horvath, missionárias em Angola, que em 1985 foram seqüestradas pela UNITA (União para Independência Total de Angola). No auge da guerrilha naquele país, Jonas Savimbi conseguiu atrair os olhares brasileiros para sua causa com este feito.

Também não estou fazendo referência ao seqüestro dos filhos do empresário Pedro Litwinczk, Sônia e Pedro Luiz, sócio da Golden Cross, por bandidos cariocas em 1991, conforme noticiou a imprensa secular e reportagem na revista Realização (1ºT93). Nestes casos, tudo correu bem. Os justos não foram desamparados... O seqüestro que me estarrece é de maiores proporções. Trata-se do maior seqüestro de batistas da história humana. Nunca se viu algo semelhante. Explico...

Fui à sede do Conselho de Coordenação e Planejamento da Convenção Batista Brasileira (Rua Senador Furtado, 12 – Praça da Bandeira, Rio de Janeiro) para uma reunião. Lá me deparei com um enorme mapa do Brasil decorando (?) o hall de entrada. Tratava-se de um instrumento para acompanhamento da evolução dos números batistas brasileiros. Ah! As estatísticas... Nós, batistas, nunca fomos bons nisto. O mapa pretende acompanhar, por Convenção Estadual, os seguintes números: de igrejas, pastores, membros e associações.

Pois bem. O que me assustou foi a seguinte constatação ali observada no dia 2/12/93: Convenções Estaduais = 29; Igrejas = 4.832; Pastores = 5.656; Membros = 595.122; Associações = 238. Saliento a membresia. Houve um desaparecimento de cerca de 260 mil batistas brasileiros. O que é feito deles?

De fato, isto é algo inusitado. O que é que, em tão pouco tempo, causou tamanho estrago entre os batistas? Bastou apenas um ano para que este número enorme de batistas desaparecesse. Confira estes dados com o que o Livro do Mensageiro da Assembléia de São Paulo, em janeiro de 1993, apresentou à página 136: 853.581 batistas. Não é algo inédito? Em apenas um ano (um pouco menos) os batistas brasileiros foram surrupiados em 1/3 de sua membresia e ninguém se deu conta disso, sequer esboçando alguma reação. Verdadeiramente nosso forte não são os números...

Veja o caso particular da Convenção Batista Fluminense. Em janeiro (Livro do Mensageiro), o número de membros era: 190.000 (estimativa para crescimento em relação aos 187.000 existentes em 31/12/91). Em dezembro (mapa do CCP da CBB) o número foi reduzido para 95.000. Veja, ainda, estes números da CBF: Nº de igrejas = 941; pastores = 1.200; associações = 28.

Os números sempre foram pedras no sapato batista brasileiro. Lembro-me, de tempos idos, quando se falava em 1 + 1 = 1 milhão. Ah, o tão famigerado milhão de batistas! Sonho de Rubens Lopes. Sonho que povoou os pensares e sonhares batistas de gerações passadas. Sonho presente na 1ª Campanha Nacional de Evangelização, que continuou na Campanha das Américas, chegou aos anos 80 com a Campanha SÓ CRISTO SALVA e agora se desintegra em um mapa do Brasil estampado em uma de nossas paredes a registrar o retrocesso dos números ao índice de três décadas atrás.

Não sou dos mais aficionados por números, embora saiba do seu valor. Mas os batistas brasileiros precisam aprender a lidar com eles. O que há de errado com nossas estatísticas? Carecem de seriedade? Participação? Atualização? O mapa do CCP-CBB está incompleto, ou os números de 1992 foram superestimados?

Números são bons quando bem analisados: eles nos ensinam! (Ah, se os secretários e diretores de EBD soubessem disto!). Vejamos alguns ensinos dos números batistas brasileiros analisados sob a ótica de diversas informações presentes em nosso meio:

- Os Batistas continuam sendo a denominação mais evangelizadora no país. Pena que nem sempre estes frutos permaneçam em nosso meio. Vá a algumas igrejas carismáticas e pergunte a procedência de seus membros: grande contingente de batistas. Este tema vale uma pesquisa séria, quem sabe, com este título: A Migração Protestante no Século XX.

- Os Batistas excluem com muita facilidade. Em algumas igrejas a incongruência é ainda mais forte: batiza-se para excluir. Precisamos rever os nossos códigos disciplinares. Podemos e devemos excluir menos. Os tempos mudaram e nem todos se aperceberam disto.

- Outro dado. Confira a diferença entre número de igrejas e de pastores existentes. O número de pastores é maior. Como se explica, então, a quantidade expressiva de igrejas sem pastor? Centenas delas? Não seria porque estamos formando pastores para nada? Gente que se faz bacharel e se faz pastor para apenas engrossar as fileiras de um “clero” não atuante?

- Outra questão a ser levantada é referente ao universo de batistas brasileiros. Que parâmetros devemos usar para medir isto? Penso que a família batista brasileira hoje é bem grande. Não devemos nos restringir aos arrolados em nossas igrejas. Temos os familiares; os que já não mais estão em nossas igrejas (e olha que há muita gente que mesmo não estando na igreja, numa pesquisa de IBGE, por exemplo, orgulha-se de se chamar batista); temos os que saíram de nós e formaram outras denominações e continuam usando a marca Batista etc, etc.

Bem. Números... Ah! Os números... Como eles podem dizer-nos coisas... Precisamos saber avaliá-los. Primeiro, precisamos saber coletá-los. Quando é que os batistas chegarão à maioridade em relação às estatísticas? Quando isto acontecer, não teremos mais seqüestros como este.
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Observação: Este texto foi publicado originalmente em O Jornal Batista, na coluna DIA A DIA, assinada pelo autor naquele hebdomadário. Publicada na edição de 30 de Janeiro de 1994.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

FÁBRICA DE MONSTROS

É de estarrecer o que se ouve por aí. E agora, com essa tal de mídia evangélica no ar – que evangélica nem sempre é – as demonstrações são mais corriqueiras. Não é que as personagens que estão em evidência no programa “Deus é Demais” da Rádio El Shadai, Rio de Janeiro, teimam em confessar na abertura de sua narrativa: “Fui criado em lar evangélico...”

Deixe-me contextualizar. “Deus é Demais” é um programa que apresenta um desfile de gente que, supõe-se, teve uma experiência religiosa fenomenal que justifique um programa dedicado inteiramente a ela e garanta uns bons índices no IBOPE. Típico melodrama do fim dos tempos...

Até aí, tudo bem. Apesar de a lista incluir: ladrões, prostitutas, homossexuais, feiticeiros, carnavalescos, exterminadores etc, etc, etc. tudo “ex”, é claro! O que intriga é esta confissão descarada que por várias vezes ouvi desses testemunhadores: “Fui criado num lar cristão!”, ou “meus pais eram evangélicos”. Certa vez, houve um que até admitiu: “Fui Embaixador do Rei!” (Organização Batista para ensinar missões aos meninos).

Perceba! Não há algo errado nessas confissões? Que haja confissão, sou a favor. É até bíblico. É necessário que eles confessem: “Fui crente”, “fui Embaixador do Rei” etc. Mas o elemento complicador vem a seguir: um “rosário” de porcarias, sujeiras e monstruosidades inadmissíveis num ser humano, muito mais quando ele se diz ter uma bagagem religiosa evangélica.

Isto me fez lembrar os anos da adolescência lá na querida Nova Friburgo, RJ. Certa feita, como de costume, fomos evangelizar no presídio da cidade. Assustei-me com a constatação. Era um tal de Moisés, Isaías, Joel... atrás das grades. Inquieto, indaguei e soube da procedência: filhos de presbíteros, de pastores, de crentes... Oriundos de certas denominações religiosas...

“Por que isso, meu Deus?!” Por que tantos Isaías e Moisés com as vidas tão sórdidas? O que a gente vê e ouve por aí é cópia tão barata que é capaz de levantar os originais dos túmulos. No “Deus é Demais!” de 10 de Outubro de 1993, o dito-cujo confessou: “Eu botava fogo em mendigos...” Como? Pode uma coisa dessas? Alguém que é criado em lar evangélico, ser criança com tal capacidade de barbarismo? Talvez o que esteja faltando é alguém levar este pessoal a responder criminalmente pelos crimes confessados. (Prometo que ainda escrevo um conto sobre isto!)

Por falar nisso, acho que alguém precisa lembrar à maioria dos evangélicos de hoje que, se confissão e perdão têm dois sentidos, reparo também tem. É claro que nem todo pecado atinge o próximo, mas todo pecado é contra Deus. Lembra-se de Davi e o famoso caso do pecado em dose dupla? Adultério e homicídio? Pois bem! Sua dolorosa conclusão diante de Deus foi: “Contra ti, contra ti somente pequei” (Sl 51.4). O pecado nunca foi uma boa idéia! Portanto, é preciso pedir perdão a Deus, mas também reparar as faltas cometidas para com o semelhante.

O que está por trás da constatação de que gente que um dia passou pelas igrejas evangélicas, andou praticando atrocidades por aí? A falência da Igreja? A falência da família? Há muita coisa para ser analisada e compreendida nestes meandros sociológicos evangélicos. A primeira impressão que se tem é que igrejas e famílias evangélicas têm-se tornado verdadeiras fábricas de monstros. Não podemos generalizar; isto é particularíssimo! De qualquer maneira, o fenômeno precisa ser perfeitamente compreendido.

Se são apenas exceções, infelizmente, não são raríssimas. Por trás dessas tristes histórias há um espectro de repressões, incompreensões e mutilações, tudo em nome de Deus e da fé. Uma criança que se cria em lar evangélico e vê o disparate de vidas (em seus pais, líderes religiosos etc) hipócritas; permeadas de incongruências; calcadas na fraudulência religiosa; certamente terá os seus conceitos de Deus, igreja, santidade e fé pervertidos e, posteriormente, descartados.

Não dá mais para se ter vidas cristãs dúbias. É preciso aproximar a crença da vivência. A teoria, da prática. O domingo, do cotidiano. Ah, aquele velho cântico “crente domingueiro” dos anos setenta. Lembra-se? No domingo ele é santarrão. Nos outros dias? Báu, baú! Quem dera que o Brasil fosse um país evangélico. Vamos orar e trabalhar par isto. Há muita gente boa em nossos arraiais que tem sido e dado excelente contributo à nação brasileira. Vamos fazer deste país uma nação cujo Deus é o Senhor. É preciso rever o passado, aparar as arestas, consertar os erros (cf. 2Cr 7.14). Só assim a gente não vacila alimentando o mundo com cidadãos de último estado, que em relação ao pecado, sempre será pior do que o primeiro (2Pe 2.20).

Observação: Este texto foi publicado originalmente em O Jornal Batista, na coluna DIA A DIA, assinada pelo autor naquele hebdomadário. Publicada na edição de 26 de Dezembro de 1993.

SODOMA, MADONNA E GOMORRA

O vulcão Madonna colocou nos ares do mundo, e recentemente do Brasil, o nauseante cheiro de enxofre do erotismo levado às últimas conseqüências. Tal constatação nos faz reportar, e relacioná-la, a Sodoma e Gomorra. Talvez um leitor apressado, ignorante da história, pudesse ler o título destas linhas e indagar-se: "Que gente é esta?" E, num pensamento que voa, concluir que Sodoma fosse um travesti qualquer de origem francesa; Madonna, ela mesma; e Gomorra, uma velha prostituta italiana, gorda e lamurienta.

Mas, não é bem assim que a coisa funciona. Nem todos os nomes são de gente, embora nesses negócios de prostituição esteja muita gente envolvida. Vale lembrar! Sodoma é a bíblica cidade, habitação do mais famoso sobrinho de Abraão, Ló, que encantado com a fertilidade de seus campos e a fartura de suas águas, quase sucumbiu por lá, não fosse à misericórdia de Deus...

Madonna... Bem, dela a gente fala depois!

Gomorra, uma cidade da planície do Jordão, que junto com Sodoma, exauriu sob o fogo dos céus por causa da perversidade de seus habitantes. Lá havia grandes plantações de uva (cf. Dt 32. 32, 33).

Das duas cidades, a que ficou mais famosa foi Sodoma. Seus pecados, inqualificáveis, moveram os céus, que condenou-a. Dela, a origem das palavras sodomita e sodomia. Sodomita é aquele que pratica atos viciosos iguais aos praticados pelos moradores de Sodoma. O Antigo Testamento nos dá conta de sacerdotisas pagãs que se prostituíam em honra de seus deuses. A lei mosaica condenou veementemente a prática da sodomia (Dt 23.17). Os reis Asa e Josafá limparam as terras de Israel da ação malévola de efeminados (1Rs 15.12).

Voltemos à Madonna. Esta artista dos finais dos tempos, municiada de uma rendosa estratégia de marketing, enche os bolsos com a mais verdinha das cédulas do planeta, agredindo a moral e a religião, vendendo uma imagem de depravação que faz bem ao estilo dos descomprometidos adolescentes modernos.

O espetáculo The Girlie Show é o extremo próximo de uma série de efeitos eróticos que Madonna concebeu e apresentou ao mundo nos últimos tempos. Em uma carreira meteórica, Madonna saiu praticamente do anonimato para o sucesso, acreditando em si mesma e tampando a boca dos mais céticos. Em pouco tempo, a artista emplacou o primeiro single de sucesso (a dançante Everybody), a primeira turnê (Material Girl), o vídeo Erótica, o livro Sex e o filme Na Cama com Madonna.

Na lista acima, a identidade explícita do que se relaciona a Madonna: sexo, sexo, sexo. Considerada artista medíocre, como atriz há quem diga que ela só se dá bem quando interpreta o próprio papel; como cantora, carece de suas exageradas coreografias e contorcionismo extremado para segurar o ritmo, Madonna achou no erotismo obssessivo e na provocação escandalosa o filão para tornar-se, ao lado de Michael Jackson, a grande detentora do show business mundial. Nas suas investidas, nem símbolos caros ao cristianismo, como a oração e a cruz, foram preservados.

Nascida Louise Veronica Ciccone, Madonna acrescentou este primeiro nome, fazendo espumar de raiva os bispos católicos da Itália pela indecorosa apropriação do nome de Nossa Senhora (deles é claro!). Nesta esteira de sucesso, a pop-erótica estrela não poupa nada ou ninguém se o retorno é compensador. Bombástica, seria a palavra mais correta para designar seu ímpeto rumo ao podium da fama.

Diante deste quadro avassalador, resta-nos uma conclusão importante acerca dos caminhos que a sociedade contemporânea tem trilhado: não temos (os cristãos bíblicos) marcado a presença que deveríamos. Os "filhos das trevas são mais sábios em muitas coisas". Eles aparecem; precisamos aparecer. Melhor, mostrar Jesus para este mundo! Eles, não têm vergonha de expor o que pensam. Nós precisamos explicitar nossa fé!

É claro que pra gente deste tipo, o final não será muito compensador. No Apocalipse, Sodoma é identificada como a grande cidade do crime e da dissolução (Ap 11.8). Gente e lugar do tipo Sodoma, Madonna e Gomorra tem destino certo. Afinal são trevas. Sejamos luz em meio a estas trevas. Não há lugar melhor para brilhar. Brilhemos!

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Observação: Este texto foi publicado originalmente em O Jornal Batista, na coluna DIA A DIA, assinada pelo autor naquele hebdomadário. Publicada na edição de 28 de Novembro de 1993.

GUERRA SANTA

Começou mais uma Guerra Santa e não se sabe onde vai chegar. De um lado os católicos. De outro, um segmento dos evangélicos. No meio, uma torre alta que se alonga céu adentro e vai fazendo subir pela cabeça dos envolvidos a ira, a inveja, o orgulho, a presunção, a cobiça e tudo o mais que ambos os grupos condenam.

A torre é alta. De baixo quase não se vê seu cume. O que há naquela ponta? Os ferros se cruzam, se entrecruzam: a torre tem forma, tem densidade, tem dimensão. O que ela representa? A Igreja Católica agora possui um canal de televisão para fazer frente ao avanço dos protestantes. Tanto católicos quanto neo-pentecostais querem fazer subir a sua torre mais alto, para lá de cima despejar suas idéias...

E a gente cá embaixo; minúsculo, pequeno. E lá em cima as ondas hertezianas voando fortes; vôos seguros, espreitativos, preparando-se para o bote. Daqui a pouco um vôo rasante vai passar sobre nós querendo depositar sua mensagem. É o poder das comunicações. Vivemos a era da eletrônica. A fé veste-se de novas roupagens e o consumidor (heresia?), fiel (que seja!), precisa ser abordado com o concurso das novas tecnologias.

É claro que esta situação é uma resposta dos católicos às incursões bem-sucedidas dos engravatados gurus gospel de plantão nas rádios e tevês deste Brasil de Deus. "Mas como fica este povo, meu Deus?!" A torre está alta. Cá embaixo seus estúdios. Os padres já estão na ante-sala, prontos para entrar e dar o seu recado:

- "Alô, alô, fiéis! Surpresaaaaaaaaa! Sou eu, seu padre da paróquia..."

Os fiéis boquiabertos. "Será mesmo?!" "Onde o "padim" foi se meter?" Mas a programação de rádio não se sustenta só de missa. A tevê, então, nem se fala: não dá para esquecer de tirar a batina, nem mesmo no dia da "pressa mais apressada" em que se esqueceu de ler o roteiro. Televisão é show, isto se aprende, e no ramo da comunicação religiosa eletrônica os católicos estão freqüentando a escola dos crentes.

O show não pode parar. E agora ambos estão no mesmo barco. É preciso inventar, criar, elaborar: mentir se preciso for. Mas tem que ter cena: jogo, luz, ilusão... E aí, vale até misturar missa com galinha preta e fé com dinheiro.

Do alto da torre cai uma Bíblia que está prestes a espatifar-se...

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Observação: Este texto foi publicado originalmente em O Jornal Batista, na coluna DIA A DIA, assinada pelo autor naquele hebdomadário. Publicada na edição de 19 de Setembro de 1993.