segunda-feira, 17 de setembro de 2007

RELIGIÃO, POLÍTICA E CORRUPÇÃO

Ainda sofrendo os respingos dos últimos acontecimentos que tiveram como palco a Câmara Federal, o Brasil chafurda-se nas descobertas de uma CPI que quase faz os brasileiros acreditarem que religião, política e corrupção sejam sinônimas. Assusta, não?! Mas é isso o que dezenas de reportagens publicadas na imprensa secular deixaram bastante explícito nos últimos meses. É como se as entranhas da corrupção fossem revolvidas e nesta empreitada se descobrisse que sangue evangélico estivesse correndo.

À coisa começou quando se descobriu que a Comissão de Orçamento, em Brasília, servia apenas de fachada para que deputados espertalhões desviassem dinheiro para os seus bolsos. Este dinheiro, para despistar, passava por caminhos sinuosos que incluía entidades assistenciais fantasmas. Nestas, começaram a surgir algumas com nomes muito parecidos com coisas a que os evangélicos estão acostumados: Ordem de Ministros Evangélicos do Brasil, Associação Promotora de Evangelismo (Rádio Boas Novas), Associação Fluminense de Educação e outras. É triste, mas é verdade: entidades muito próximas ao convívio dos evangélicos.

As reportagens apresentaram títulos os mais comprometedores. Vejam: Pastor ganhou verbas mas já lesou INSS. Muito triste. Trata-se do reverendo Isaías de Souza Maciel acusado de fraudes com o antigo INAMPS, na gestão do SASE (Serviço de Assistência Social Evangélico). Ele sustenta o título de persona non grata junto à Previdência Social (ver Jornal do Brasil, 6/11/93). Outra reportagem estampou: A CPI da adúltera na paróquia, fazendo referência à Marinalva Soares da Silva, 38, que foi expulsa da Assembléia de Deus pelo pai, pastor Marinésio, “que não agüentou as pressões da comunidade”. Ela é ex-esposa do deputado Manoel Moreira (PMDB-SP), envolvido até o pescoço no lamaçal do Congresso (confira em Veja, nº 1319, pág. 81).

Nesta esteira, é claro que muitos jornalistas não deixaram isto barato. É o caso de Aguinaldo Silva, que em sua coluna no Jornal do Brasil soltou este torpedo: “Não é segredo pra ninguém que os deuses evangélicos nutrem um apetite voraz por dinheiro.” E acrescentou: “Tudo bem quando este dinheiro sai dos bolsos dos fiéis através do chamado dízimo. Agora, quando é pescado nos cofres públicos, aí a gente começa a perceber melhor o quanto é móvel a fronteira que separa certas religiões da picaretagem pura e simples.” (14/11/93).

Triste disto tudo é que as grandes denominações evangélicas no Brasil pouco ou nada fazem para verem-se livres destes fantasmas políticos que rondam as suas agremiações. Alguns destes, que se dizem representantes dos evangélicos nas instâncias políticas, nunca honraram sua denominação e seu Deus, sequer correspondendo aos anseios daqueles que os alçaram ao poder público. Mas, aí, o emaranhado de gatos é ainda maior, porque no Brasil o próprio povo se acomodou aos votos de barganha, num troca-troca desavergonhado em que a lei da vantagem se sobrepõe à ética cristã.

Até que houve um arremedo de resistência, mas, então, “Inês já era morta!” Uma reportagem trouxe a manchete: CPI deixa evangélicos preocupados, e o seguinte subtítulo: Pastores acham discriminação citar vínculo de Moreira com a Assembléia de Deus (ver Jornal do Brasil, 14/11/93). Tudo bem que a imprensa é cruel neste sentido. Quando é um católico ou espírita que fraqueja no trato da coisa pública, ela não ressalta sua condição religiosa, mas quando é evangélico... Ah, quando é evangélico, a imprensa descasca! Mas, será que os líderes das diversas denominações não sabem com quem estão lidando? Picareta se conhece pelo cheiro. Mas aqui também entra um conceito muito brincalhão no meio evangélico: o utilitarismo de carteirinha. É o chamado útil descartável: enquanto não compromete até que o elemento “x” ou “y” pode prestar uns bons serviços à Causa. Então, quando a gente toma chicotada da imprensa é porque lá atrás, a uns bons quarteirões, a ética ficou estilhaçada...

Não é preciso que os evangélicos arranquem os cabelos por causa desta situação. É necessário, tão somente, que estejam dispostos a cumprirem seu papel de “sal da terra” e “luz do mundo”, sem rodeios e sem medos, conscientes de que já passou o tempo em que se vivia uma dicotomia nas relações com o material. Sagrado e profano são conceitos que se prestam muito bem à manipulação de mentes e circunstâncias. Se estamos com nossas vidas submissas à ação do Espírito Santo e nisto perseveramos, não há espaço para fragmentações: somos do Senhor e pronto! Agora, não dá para aceita a corrupção passivamente. Quando cumprimos nossa missão profética, denunciando as mazelas daqueles que exploram o pobre e espezinham o indefeso, então alçaremos a religião aos mais altos padrões, descartando qualquer parentesco mal-amado com corruptelas desta vida.

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Observação: Este texto foi publicado originalmente em O Jornal Batista, na coluna DIA A DIA, assinada pelo autor naquele hebdomadário. Publicada na edição de 03 de Abril de 1994.

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