O fato realmente me pegou de surpresa. Não esperava por esta onda de seqüestros de batistas brasileiros. Foi estarrecedor, algo grave. “Diz logo o que aconteceu!” – deve estar pensando você. Mas é isto mesmo: batistas seqüestrados! E olha que não estou me referindo ao seqüestro das irmãs Miriam e Margarida Horvath, missionárias em Angola, que em 1985 foram seqüestradas pela UNITA (União para Independência Total de Angola). No auge da guerrilha naquele país, Jonas Savimbi conseguiu atrair os olhares brasileiros para sua causa com este feito.
Também não estou fazendo referência ao seqüestro dos filhos do empresário Pedro Litwinczk, Sônia e Pedro Luiz, sócio da Golden Cross, por bandidos cariocas em 1991, conforme noticiou a imprensa secular e reportagem na revista Realização (1ºT93). Nestes casos, tudo correu bem. Os justos não foram desamparados... O seqüestro que me estarrece é de maiores proporções. Trata-se do maior seqüestro de batistas da história humana. Nunca se viu algo semelhante. Explico...
Fui à sede do Conselho de Coordenação e Planejamento da Convenção Batista Brasileira (Rua Senador Furtado, 12 – Praça da Bandeira, Rio de Janeiro) para uma reunião. Lá me deparei com um enorme mapa do Brasil decorando (?) o hall de entrada. Tratava-se de um instrumento para acompanhamento da evolução dos números batistas brasileiros. Ah! As estatísticas... Nós, batistas, nunca fomos bons nisto. O mapa pretende acompanhar, por Convenção Estadual, os seguintes números: de igrejas, pastores, membros e associações.
Pois bem. O que me assustou foi a seguinte constatação ali observada no dia 2/12/93: Convenções Estaduais = 29; Igrejas = 4.832; Pastores = 5.656; Membros = 595.122; Associações = 238. Saliento a membresia. Houve um desaparecimento de cerca de 260 mil batistas brasileiros. O que é feito deles?
De fato, isto é algo inusitado. O que é que, em tão pouco tempo, causou tamanho estrago entre os batistas? Bastou apenas um ano para que este número enorme de batistas desaparecesse. Confira estes dados com o que o Livro do Mensageiro da Assembléia de São Paulo, em janeiro de 1993, apresentou à página 136: 853.581 batistas. Não é algo inédito? Em apenas um ano (um pouco menos) os batistas brasileiros foram surrupiados em 1/3 de sua membresia e ninguém se deu conta disso, sequer esboçando alguma reação. Verdadeiramente nosso forte não são os números...
Veja o caso particular da Convenção Batista Fluminense. Em janeiro (Livro do Mensageiro), o número de membros era: 190.000 (estimativa para crescimento em relação aos 187.000 existentes em 31/12/91). Em dezembro (mapa do CCP da CBB) o número foi reduzido para 95.000. Veja, ainda, estes números da CBF: Nº de igrejas = 941; pastores = 1.200; associações = 28.
Os números sempre foram pedras no sapato batista brasileiro. Lembro-me, de tempos idos, quando se falava em 1 + 1 = 1 milhão. Ah, o tão famigerado milhão de batistas! Sonho de Rubens Lopes. Sonho que povoou os pensares e sonhares batistas de gerações passadas. Sonho presente na 1ª Campanha Nacional de Evangelização, que continuou na Campanha das Américas, chegou aos anos 80 com a Campanha SÓ CRISTO SALVA e agora se desintegra em um mapa do Brasil estampado em uma de nossas paredes a registrar o retrocesso dos números ao índice de três décadas atrás.
Não sou dos mais aficionados por números, embora saiba do seu valor. Mas os batistas brasileiros precisam aprender a lidar com eles. O que há de errado com nossas estatísticas? Carecem de seriedade? Participação? Atualização? O mapa do CCP-CBB está incompleto, ou os números de 1992 foram superestimados?
Números são bons quando bem analisados: eles nos ensinam! (Ah, se os secretários e diretores de EBD soubessem disto!). Vejamos alguns ensinos dos números batistas brasileiros analisados sob a ótica de diversas informações presentes em nosso meio:
- Os Batistas continuam sendo a denominação mais evangelizadora no país. Pena que nem sempre estes frutos permaneçam em nosso meio. Vá a algumas igrejas carismáticas e pergunte a procedência de seus membros: grande contingente de batistas. Este tema vale uma pesquisa séria, quem sabe, com este título: A Migração Protestante no Século XX.
- Os Batistas excluem com muita facilidade. Em algumas igrejas a incongruência é ainda mais forte: batiza-se para excluir. Precisamos rever os nossos códigos disciplinares. Podemos e devemos excluir menos. Os tempos mudaram e nem todos se aperceberam disto.
- Outro dado. Confira a diferença entre número de igrejas e de pastores existentes. O número de pastores é maior. Como se explica, então, a quantidade expressiva de igrejas sem pastor? Centenas delas? Não seria porque estamos formando pastores para nada? Gente que se faz bacharel e se faz pastor para apenas engrossar as fileiras de um “clero” não atuante?
- Outra questão a ser levantada é referente ao universo de batistas brasileiros. Que parâmetros devemos usar para medir isto? Penso que a família batista brasileira hoje é bem grande. Não devemos nos restringir aos arrolados em nossas igrejas. Temos os familiares; os que já não mais estão em nossas igrejas (e olha que há muita gente que mesmo não estando na igreja, numa pesquisa de IBGE, por exemplo, orgulha-se de se chamar batista); temos os que saíram de nós e formaram outras denominações e continuam usando a marca Batista etc, etc.
Bem. Números... Ah! Os números... Como eles podem dizer-nos coisas... Precisamos saber avaliá-los. Primeiro, precisamos saber coletá-los. Quando é que os batistas chegarão à maioridade em relação às estatísticas? Quando isto acontecer, não teremos mais seqüestros como este.
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Observação: Este texto foi publicado originalmente em O Jornal Batista, na coluna DIA A DIA, assinada pelo autor naquele hebdomadário. Publicada na edição de 30 de Janeiro de 1994.
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
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