quinta-feira, 13 de setembro de 2007

FÁBRICA DE MONSTROS

É de estarrecer o que se ouve por aí. E agora, com essa tal de mídia evangélica no ar – que evangélica nem sempre é – as demonstrações são mais corriqueiras. Não é que as personagens que estão em evidência no programa “Deus é Demais” da Rádio El Shadai, Rio de Janeiro, teimam em confessar na abertura de sua narrativa: “Fui criado em lar evangélico...”

Deixe-me contextualizar. “Deus é Demais” é um programa que apresenta um desfile de gente que, supõe-se, teve uma experiência religiosa fenomenal que justifique um programa dedicado inteiramente a ela e garanta uns bons índices no IBOPE. Típico melodrama do fim dos tempos...

Até aí, tudo bem. Apesar de a lista incluir: ladrões, prostitutas, homossexuais, feiticeiros, carnavalescos, exterminadores etc, etc, etc. tudo “ex”, é claro! O que intriga é esta confissão descarada que por várias vezes ouvi desses testemunhadores: “Fui criado num lar cristão!”, ou “meus pais eram evangélicos”. Certa vez, houve um que até admitiu: “Fui Embaixador do Rei!” (Organização Batista para ensinar missões aos meninos).

Perceba! Não há algo errado nessas confissões? Que haja confissão, sou a favor. É até bíblico. É necessário que eles confessem: “Fui crente”, “fui Embaixador do Rei” etc. Mas o elemento complicador vem a seguir: um “rosário” de porcarias, sujeiras e monstruosidades inadmissíveis num ser humano, muito mais quando ele se diz ter uma bagagem religiosa evangélica.

Isto me fez lembrar os anos da adolescência lá na querida Nova Friburgo, RJ. Certa feita, como de costume, fomos evangelizar no presídio da cidade. Assustei-me com a constatação. Era um tal de Moisés, Isaías, Joel... atrás das grades. Inquieto, indaguei e soube da procedência: filhos de presbíteros, de pastores, de crentes... Oriundos de certas denominações religiosas...

“Por que isso, meu Deus?!” Por que tantos Isaías e Moisés com as vidas tão sórdidas? O que a gente vê e ouve por aí é cópia tão barata que é capaz de levantar os originais dos túmulos. No “Deus é Demais!” de 10 de Outubro de 1993, o dito-cujo confessou: “Eu botava fogo em mendigos...” Como? Pode uma coisa dessas? Alguém que é criado em lar evangélico, ser criança com tal capacidade de barbarismo? Talvez o que esteja faltando é alguém levar este pessoal a responder criminalmente pelos crimes confessados. (Prometo que ainda escrevo um conto sobre isto!)

Por falar nisso, acho que alguém precisa lembrar à maioria dos evangélicos de hoje que, se confissão e perdão têm dois sentidos, reparo também tem. É claro que nem todo pecado atinge o próximo, mas todo pecado é contra Deus. Lembra-se de Davi e o famoso caso do pecado em dose dupla? Adultério e homicídio? Pois bem! Sua dolorosa conclusão diante de Deus foi: “Contra ti, contra ti somente pequei” (Sl 51.4). O pecado nunca foi uma boa idéia! Portanto, é preciso pedir perdão a Deus, mas também reparar as faltas cometidas para com o semelhante.

O que está por trás da constatação de que gente que um dia passou pelas igrejas evangélicas, andou praticando atrocidades por aí? A falência da Igreja? A falência da família? Há muita coisa para ser analisada e compreendida nestes meandros sociológicos evangélicos. A primeira impressão que se tem é que igrejas e famílias evangélicas têm-se tornado verdadeiras fábricas de monstros. Não podemos generalizar; isto é particularíssimo! De qualquer maneira, o fenômeno precisa ser perfeitamente compreendido.

Se são apenas exceções, infelizmente, não são raríssimas. Por trás dessas tristes histórias há um espectro de repressões, incompreensões e mutilações, tudo em nome de Deus e da fé. Uma criança que se cria em lar evangélico e vê o disparate de vidas (em seus pais, líderes religiosos etc) hipócritas; permeadas de incongruências; calcadas na fraudulência religiosa; certamente terá os seus conceitos de Deus, igreja, santidade e fé pervertidos e, posteriormente, descartados.

Não dá mais para se ter vidas cristãs dúbias. É preciso aproximar a crença da vivência. A teoria, da prática. O domingo, do cotidiano. Ah, aquele velho cântico “crente domingueiro” dos anos setenta. Lembra-se? No domingo ele é santarrão. Nos outros dias? Báu, baú! Quem dera que o Brasil fosse um país evangélico. Vamos orar e trabalhar par isto. Há muita gente boa em nossos arraiais que tem sido e dado excelente contributo à nação brasileira. Vamos fazer deste país uma nação cujo Deus é o Senhor. É preciso rever o passado, aparar as arestas, consertar os erros (cf. 2Cr 7.14). Só assim a gente não vacila alimentando o mundo com cidadãos de último estado, que em relação ao pecado, sempre será pior do que o primeiro (2Pe 2.20).

Observação: Este texto foi publicado originalmente em O Jornal Batista, na coluna DIA A DIA, assinada pelo autor naquele hebdomadário. Publicada na edição de 26 de Dezembro de 1993.

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